Uma Saga Chamada Lesões na Corrida

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O fenómeno da corrida teve uma expansão expressiva na última década. Com o aumento de pessoas ativas a correr aumentou também a percentagem de lesões resultantes da prática da corrida.

Quem de nós nunca passou por uma lesão na corrida? Quantos de nós ficamos sem perceber o porquê dessa lesão?

É verdade, elas existem e muitas fazem-nos parar obrigatoriamente. Fica a saber quais as lesões mais comuns, quais as causas e como lidar com as mesmas.
A corrida de fundo é propícia ao desenvolvimento de inúmeras lesões e a maior parte das vezes a causa é multifatorial. A medicina desportiva dá ênfase as alterações e anomalias biomecanicas contudo a maioria das lesões na corrida advêm de erros de treino. Podemos considera-las lesões de overuse.

O aumento da ‘quilometragem’ de forma incorrecta é normalmente o primeiro fator a ser analisado contudo, devem ser avaliadas possíveis alterações ao treino como o aumento de intensidade, introdução de rampas ou treino em superfícies irregulares.

A dor é o sinal de alarme e de uma forma geral tendemos a desvaloriza-lá ou esperar para ver no que evolui. Este é o erro primordial mais comum.

A avaliação é um dos momentos mais importantes após a lesão. Uma boa avaliação e identificação das causas que provocaram determinada dor é o caminho para o sucesso do tratamento e recuperação da mesma.

A dor é o sinal de alarme e de uma forma geral tendemos a desvaloriza-lá ou esperar para ver no que evolui. Este é o erro primordial mais comum. Se apostarmos numa avaliação imediata muitas destas dores podem ser facilmente revertidas com exercícios caseiros de alongamento, fortalecimento ou relaxamento. Mas, se pelo contrário as deixamos agravar aí vamos contribuir para as elevadas percentagens de lesões na corrida e necessitar de outro tipo de acompanhamento.

No momento de avaliar e perceber o porquê de uma lesão é importante realizar uma avaliação geral e conjugar vários fatores – história clínica atual e anterior (como atleta/runner), avaliação do calçado, avaliação física e postural e avaliação dinâmica da corrida.

História do Atleta

É importante saber os anos de atleta, as lesões anteriores e história de treino anterior e atual. Mais importante é perceber se houve alterações no treino e se sim, quais. Os sinais de overtraining devem ser avaliados: aumento do ritmo cardíaco em repouso, irritabilidade, alteração do padrão de sono, alteração do apetite e história recente de infeções.

A história de lesões anteriores é muito importante. Quando recorrentes ou quando a lateralidade é repetida remete para alterações biomecanicas e/ou posturais que devem ser avaliadas e detetadas.

Avaliação do Calçado

A escolha do calçado perante uma tão grande variedade de marcas e formatos é hoje um tópico que só por si causa discussão. Tema já abordado aqui.

Com o poder crescente do marketing há uma premissa que deve ser tida em conta ‘mais não é necessariamente melhor’. Esta frase surge nos anos 80 após se perceber que o aumento do amortecimento na zona dos calcanhares estava diretamente relacionado com o aparecimento de algumas lesões. Maioritariamente a preocupação prendia-se em avaliar a forma de contactar com o solo mas, a fase de impulsão da corrida é das mais importantes  e o aumento de amortecimento dos ténis leva à alteração biomecânica da fase de impulsão.

A pronação ou supinação excessivas também devem ser tidas em conta no momento de adquir o calçado. Olhar para as solas dos nossos ténis quando estes já fizeram uns bons quilómetros ajuda a perceber onde colocamos a maior carga.

Falando em ‘bons quilómetros’ é importante trocar de ténis com alguma regularidade. Experts na matéria falam em perda de qualidade do material em pelo menos 30% após 800km, recomendam que para evitar lesões devido ao desgaste dos ténis o ideal será não abusar dos 500km por par de ténis.

Avaliação física e postural

A avaliação postural é a base da avaliação física. Perceber se os pés são planos ou cavos, se os joelhos são varus ou valgus, se a bacia está mais anterior ou posterior e comparar o lado direito com o esquerdo. Avaliar o comprimento muscular (capacidade de alongamento), a força e os desequilíbrios musculares. Avaliar possíveis dismetrias entre os dois membros inferiores.

Biomecânica da corrida

A avaliação biomecânica da corrida é a mais complexa avaliação mas daí também podem advir várias e importantes conclusões. Fazer um filme em câmara lenta (de preferência em terreno natural) ajudará a identificar a biomecânica e as suas alterações.

Ter um padrão de corrida correcto é uma característica que assenta em poucos atletas e runners. É preciso muito trabalho dedicado à correção de pequenas imperfeições e alterações biomecanicas, persistência e método. Não são as alterações biomecanicas na corrida as responsáveis pelas lesões mas sim a repetição destes padrões repetidos diariamente, durante muitas horas e quilómetros semanais. Com o acumular de treino começa a dificuldade do organismo recuperar e vão surgindo microtraumas. Com a continuação do treino sem um tempo adequado de recuperação, esses microtraumas convertem-se em dores e possíveis lesões.

Quais são então as mais comuns lesões da corrida?

Segundo a atual evidência científica disponível encontramos 7 lesões que são denominadas como as mais frequentes, prevalentes e problemáticas e será sobre elas que nos debruçaremos nos próximos artigos. São elas: tendinite do tendão de Aquiles, síndrome da banda ilio-tibial, síndrome patelofemural, fasceíte plantar, periostite, síndromes compartimentais e farturas de stress.

Queres ficar a saber mais sobre cada uma e como podes lidar com determinada lesão?! Acompanha os próximos artigos!

Bibliografia 

Knobloch, K. et al. Acute and overuse injuries correlated to hours of training in master running athletes. 2008. American Orthopedic Foot and Anckle Society.

Strakowski, J. Jamil, T. Management of comum running injuries. 2006. 537-552. Phys Med Rehabil Clin N Am.

Frederikson, M. Common Injuries in Runners – Diagnosis, rehabilitation and prevention. 1996. 21 (1) 49-72. Sports Medicine.

Lopes, A. Et al. What are the Main Running-Related
Musculoskeletal Injuries? 2012. 42 (10) 891-905. Sports Medicine.

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